sábado, 10 de abril de 2010

Entrevista Exclusiva com a pesquisadora do povo cigano Fátima Cald - Primeira Parte

A pesquisadora do povo cigano, Fátima Cald, conta em entrevista, sobre a história e cultura de um povo que mesmo em meio a tantos preconceitos, desde seu surgimento espalha a magia, alegria e muita inspiração por todos os lugares por onde passam.


Jornal Optcha!: Fátima Cald, primeiro agradecer por esta entrevista, e comentar que é muito interessante a história desse povo e o fato de que ele vai além da dança e oráculos.


Fátima Cald: É verdade, o povo cigano, que é envolto a mistérios, possui toda uma trajetória de vida, e, informações desse cunho, raramente são passadas nos eventos, o que eu sinto falta. O povo cigano faz parte da nossa história, eles são importantes no processo de formação da nossa sociedade. Eles são a dança, mas não somente ela.


JO: Fátima, da onde surgiu a sua admiração pelo povo cigano?


FC: Minha admiração pelo povo cigano é antiga. Desde cedo aprecio a cultura, a história. É um povo mal visto e considerado trapaceiro, com uma conduta incerta. É a minoria, e eu aprecio as minorias. Essa admiração cresceu à medida que eu trabalhava com as cartas ciganas: quanto mais aprendia, mais meu interesse em conhecer mais sobre o povo ligado a elas. O engraçado é que minha família é portuguesa, ou seja, não viam os ciganos com bons olhos. Como até hoje, visto que as pessoas não têm olhar doce para as minorias, como negros, homossexuais e os ciganos.


JO: Você é uma pesquisadora do povo cigano, no começo, quando se decidiu por ser estudiosa desse povo, como as pessoas a sua volta, parentes, amigos, reagiram?


FC: Quando eu comecei todos me criticaram. Todos me perguntavam o porquê de eu logo me interessar por um povo precário, trapaceiro. Sofri preconceito e, de certa forma, ainda sofro, acredito que pelo fato de eu andar de saia, e minha aparência lembrar uma a de cigana.


JO: Quais são as suas fontes de pesquisas?


FC: Muitas coisas eu descobri pesquisando em livros de autores que tem credibilidade no meio cigano, como Raymond Buckland, Cristina da Costa Pereira, Nelson Pires Filho, também a Mirian Stanescon. Meu conhecimento veio dos meus estudos e uma boa parte dele eu adquiri com os próprios ciganos.


JO: Existe um mito que diz que cigano é ladrão e rouba crianças. O que você tem a dizer?


FC: Por tudo que eu tenha lido, estudado, eu cheguei à conclusão de que as mulheres ciganas, acima de tudo, são seres humanos e podem ter filhos como outra qualquer. Por isso, os ciganos não têm a necessidade de roubar crianças.

Há uma história que, no início da caminhada dos ciganos, por volta do século XIV, a sociedade estava impregnada de valores morais e engravidar antes do casamento era considerado um pecado e, logicamente, não era bem visto. Então, as mulheres que engravidavam antes de se casarem, tinham esses filhos e eles eram entregues aos ciganos para que os levassem embora. Com o tempo, essas crianças cresciam e eram diferentes daquelas pessoas com quem conviviam, já que os ciganos, mais precisamente, vieram da Índia, possuíam a pele morena e aquelas crianças, que eram filhas de europeus, logo eram brancas. Daí surge uma desconfiança. Mas, seqüestrá-las? Isso não. Até por que, a cigana que não engravida é considerada uma árvore seca, um ventre que não gerou. Os ciganos valorizam a gravidez, a criança. A mulher que tem filhos é uma pessoa abençoada.

Em relação a pequenos furtos, eu acredito que tenha acontecido, por que os ciganos eram de estrada, sem trabalho, não tinham dinheiro para comer, então, cometiam esses delitos por que tinham fome.

Imagina pessoas andando há dias, em condições precárias, sem dinheiro, sem comida, daí se deparam com uma árvore frutífera, você acha que eles não vão ficar tentados? Claro que vão. Isso é fome, miséria.

Encarando essa situação por uma visão universalista, você que tem uma árvore cheia de frutos será que não pode me dar alguns por que estou com fome? É a questão do repartir, nós que pregamos tanto, fazemos o contrário.


JO: Uma pergunta clássica, mas ainda misteriosa: da onde surgiu o povo cigano?


FC: Tudo o que cerca esse povo tem várias versões, por que os ciganos, diferente de outros povos não deixaram nada registrado. Todo o conhecimento era passado das pessoas mais velhas para as mais novas.

Segundo Mirian Stanescon, eles vieram do Egito, mas a maioria dos pesquisadores afirma que a origem dos ciganos é do norte da Índia. Ainda na Índia, depois de sofrerem perseguições eles fugiram, e se espalharam pelo mundo. Pode-se dizer Eslováquia, Polônia, Rússia, Portugal e Brasil.


JO: E com isso, não se tem uma palavra final a respeito das tradições, por que elas são instáveis, não é?


FC: Exatamente. Não dá para se definir um único tipo de tradição cigana por que eles se adaptavam ao país onde residiam. A tradição varia de clã para clã.


JO: Mas não existe nada que pode ser afirmado a respeito de todos os ciganos, como um ponto em comum, algo imutável?


FC: Existem umas universalidades, por exemplo, os ciganos não gostam muito da cor preta. Dizem que tudo o que é bonito na natureza é colorido. Cada cor pra os ciganos tem sempre um simbolismo rico, é muito levada em consideração.


JO: Dentre os clãs que existem qual deles predominou no Brasil?


FC: Para o Brasil vieram os ciganos Calons. Eles vieram de Portugal e estão espalhados pela Baixada Fluminense, Campinas, Belo Horizonte. A quantidade ainda é desconhecida, pois não existe um censo para saber.

Os ciganos vieram de Portugal na época do povoamento da colônia, junto com as demais figuras consideradas más influências para Portugal na época (bandidos, prostitutas, mendigos etc.) e aqui, trabalharam como artistas, ferreiros, vendedores, comerciantes. Os ciganos são pouco citados nos livros de História, assim como sua presença no Holocausto, onde meio milhão deles foi exterminado nos campos nazistas.


JO: Meio milhão?


FC: Exatamente. E não foi só isso, o povo cigano por ser considerado um povo muito esperto e feiticeiro, foi colocado em campos separados das outras pessoas, para que não tramassem alguma fuga ou qualquer coisa do tipo.


Continua.

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